sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Vaqueiro Acariense

Foto: Riccelli Medeiros

Por Jesus de Miúdo

Conjunto de mito e herói maior desses rincões chamado Sertão, é o vaqueiro. E Roberasmo, na foto com o rosto estropiado pelos espinhos, é a prova viva que a nossa cultura tem futuro e que a imagem do vaqueiro sobre seu cavalo e com sua roupa de gala em couro, jamais será substituída por nada. Quero ver é ter macho para puxar rabo de boi sobre uma motocicleta e digo, sem medo algum de errar em meu conceito: O capacete dos motoqueiros nunca será páreo ao chapéu de couro dentro da caatinga! Ora, quem já viu vaqueiro sem cavalo?!

O vaqueiro chorou vendo a ossada do cavalo que a seca assassinou

Sete meses, meu bem, ele passou fora
Viajando pra’s terras do Sudeste
Foi fugindo dessa seca, dessa peste
Que lh’esmaga, lhe aniquila e lhe devora
Decidido, no entanto, veio embora
Pra o sertão que o seu peito sempre amou
Pois paixões, sua alma aqui deixou
E chegando aqui, logo na entrada
O vaqueiro chorou vendo a ossada
Do Cavalo que a seca assassinou.

Relembrou com saudade os velhos dias
Sobre o amigo perseguindo um boi bem brabo
Derrubando-o, na faixa, pelo rabo
Recebendo aplausos em honrarias
Esqueceu-se, porém, das alegrias
Vendo ali, sobre o solo, o que sobrou
Do amigo fiel que tanto amou
Num soluço da alma alquebrada
O vaqueiro chorou vendo a ossada
Do Cavalo que a seca assassinou.

Nem os carinhos de sua linda donzela
Lhe remiu da tristeza ali presente
Nem o céu que escureceu bem de repente
Atenuam a dor que lhe martela.
Sem fugir da cena que lhe flagela
O vaqueiro bem triste aboiou
Quando a brisa, do poente, forte soprou
E lhe trouxe a chuva tão esperada
O vaqueiro chorou vendo a ossada
Do Cavalo que a seca assassinou.

Nem a água caindo lá de cima
Com as lágrimas molhando o seu rosto
Lhe tirou de tão grande desgosto
De perder aquele por quem lastima
No aboio, solitário, uma última rima
Enquanto um raio, caindo, lhe iluminou
Com sua voz, o trovão se misturou
Dando mais tristeza à cena enlutada
O vaqueiro chorou vendo a ossada
Do Cavalo que a seca assassinou.

Foi saindo devagar daquele canto
Perdido nos devaneios da lembrança
Consigo, mesmo assim, leva esperança
Que Deus dê consolo ao seu pranto
A tristeza lhe cobria, era seu manto
E na donzela amada ele se apoiou
Dando um adeus inibido ao que restou
Suspirando de saudade na última olhada
O vaqueiro chorou vendo a ossada
Do Cavalo que a seca assassinou.

Sua dor se tornou a mais plangente
Quando em casa abraçou sua viola
Feito pássaro preso na gaiola
Assobiando muito baixo e bem dolente
Sua rima se tornou sua confidente
E em versos sua mágoa assim gravou
Enfatizando o que pôde e relembrou
Consternado e cantando numa toada
O vaqueiro chorou vendo a ossada
Do Cavalo que a seca assassinou.

2 comentários:

vaqueiro disse...

e eu aki lendo essa toada
chorando de tristeza por uma dor
lembrando por aki quem ja passou
revendo em memoria um boi marrueiro
furando o peito de um alasao
em cada curral do sertao
tem a alma de um vaqueiro.

djoaci disse...

Foi legal,eu estava lar nessa semana que passou...!!